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Durante muito tempo a origem das doenças mentais e físicas foi atribuída aos espíritos ou vistas como desígnios divinos, ficando seu tratamento a cargo dos feiticeiros.
Na mitologia grega várias divindades estão vinculadas à saúde, tais como Apolo, Esculápio, Higéia e Panacéia. Hipócrates (460-377 A.C.) opôs-se a esta visão mágica das doenças, atribuindo-lhes uma causa orgânica baseada em sua teoria humoral, isto é, as doenças eram manifestações de uma alteração em um dos seguintes humores: sangue, linfa, fleugma ou bílis. No que diz respeito às doenças mentais, ele descreveu a Frenite, a Mania e a Melancolia.
Asclepíades acreditava que as doenças mentais eram consequências das alterações da paixão. Celso (25 a.C.-50) denominou as doenças psíquicas como “Insânias”. Paracelso (1493-1541) postulava que a doença mental era uma manifestação da perturbação da substância interna do corpo e que o tratamento consistia em reforçar o corpo para ocorrer um processo de “autocura”.
Descartes (1596-1650) postulou a separação total da mente e corpo, sendo o estudo da mente atribuído à religião e à filosofia, e o estudo do corpo, que era visto como uma máquina, era objeto de estudo da medicina
Em 1656 o rei Luis XIV criou os hospitais Salpetrière e Bicêtre (onde esteve o Marques de Sade), para onde eram enviados os doentes mentais, ao lado de prostitutas e marginais, todos vivendo em uma situação degradante. Phillipe Pinel (1745-1826) foi diretor do Bicêtre e libertou os asilados, sendo que alguns viviam algemados há muito tempo, desta forma Pinel teve um papel muito importante na humanização do tratamento reservado aos doentes.
Ainda na França, Charcot e Pierre Janet dedicaram-se ao estudo da hipnose como um método de tratamento. No fim do século 19 Pierre Janet, através do caso de Marie, levantou a hipótese psicodinâmica para um processo psicossomático, acreditando que a dissociação era o resultado de uma deficiência na energia psicológica “la misère psychologique”.
Sigmund Freud (1856- 1939) também estudou a hipnose como abordagem terapêutica, e após a livre associação, realizando uma verdadeira revolução no modo de entender o ser humano, postulando que este era movido por processos inconscientes, o determinismo psíquico.
A tendência de uma visão dualista: organicista ou psicológica ganhou vários adeptos dos dois lados. A descoberta do Treponema pallidum (agente causador da Sífilis) em 1905 e, mais tardiamente (1913), os estudos de Noguchi e Moore que demonstraram que a paresia generalizada era decorrente da infecção do sistema nervoso pela sífilis “puxava” para o lado organicista, note que esta foi a primeira vez em toda a história de medicina que ficou demonstrado indubitavelmente uma alteração biológica no cérebro como a causadora de um distúrbio mental. Outros pesquisadores importantes como Alois Alzheimer e Arnold Pick com seu estudo anatomopatológico das demências são exemplos desta preocupação com os aspectos biológicos dos transtornos mentais. Adler, Jung, Melanie Klein e Ferenczi alinhavam-se na visão psicológica dos transtornos mentais, o que foi reforçado no pós-guerra pelos casos de quadros clínicos claramente influenciados pelo stress da guerra.
Nosso objetivo não é fazer uma revisão deste tema tão interessante, apenas uma contextualização dos tratamentos utilizados até chegarmos aos dias atuais.
Quais eram os métodos de tratamento?
O objetivo de minorar o sofrimento mental acompanha a humanidade há muito tempo, por exemplo na Bíblia há o relato do tratamento da depressão do rei Saul, que era feito através da música, com a harpa executada por Davi.
Trepanação
A trepanação (trupanon grego= broca) nada mais é do que fazer um buraco no crânio de um homem vivo, sem anestesia. Há evidências do uso desta técnica há 40.000 anos. Não se tem conhecimento sobre o motivo de tantos crânios terem sido encontrados com estas perfurações, mas acredita-se que, além de ser usada em tempos de guerra (os crânios de inimigos podem ter sido usados como amuletos pelos vencedores) os feiticeiros (médicos) usariam a trepanação como uma forma de deixar os demônios saírem dos corpos dos doentes. O mais incrível é que os pacientes sobreviviam a este procedimento (sem antibióticos e nem assepsia), pois pelos sinais encontrados nos crânios estudados, cerca de 65 a 70% apresentavam sinais de regeneração nas bordas ósseas.
Malarioterapia
Um tratamento biológico foi inicialmente proposto por Jauregg, através da “Malarioterapia” para manifestações psiquiátricas da Sífilis. Entre as manifestações tardias da Sífilis encontra-se a neurosífilis, os pacientes acometidos apresentavam uma degeneração progressiva, com comprometimento da fala, convulsões, problemas de coordenação motora, paralisia, sintomas psiquiátricos como agitação psicomotora, depressão, paranoia, suicídio, agressividade, delírios, déficit de memória e de orientação. Note que este era um quadro clínico apresentado por muitos pacientes, e era conhecido como “Demência paralítica”. Jauregg havia observado que vários pacientes com problemas psiquiátricos melhoravam muito após recuperarem-se de doenças que causavam febre, tais como febre tifoide, erisipela e tuberculose, de posse desta observação passou a pesquisar a relação entre febre e doença mental. Em 1917 este pesquisador injetou o sangue de um soldado que apresentava Malária em vários pacientes com o quadro de “Demência paralítica”, obtendo resultados muito favoráveis. Seus estudos nesta área renderam-lhe o Prêmio Nobel de Medicina em 1927.
Insulinoterapia
Sakel (1933) utilizou a “Insulinoterapia”, como forma de tratamento psiquiátrico. Ele descobriu acidentalmente que o coma induzido por insulina era eficaz para pacientes com psicoses, especialmente a Esquizofrenia. Os resultados foram muito promissores, gerando muito entusiasmo, no entanto os efeitos eram temporários e por este motivo acabou sendo um método abandonado, mas historicamente de grande valia.
Convulsões por Metazol
Meduna, partindo do pressuposto que haveria um antagonismo biológico entre a Epilepsia e a Esquizofrenia passou a investigar várias substâncias capazes de provocar convulsões, entre elas a cânfora, estricnina, tebaína, pilocarpina e pentilenotetrazol, acabou fixando-se no estudo do metazol, que ocasionava convulsões rapidamente. Os resultados obtidos eram favoráveis, mas com sérias complicações tais como fraturas, uma vez que não era muito fácil controlar as convulsões, enquanto a insulinoterapia era mais controlável. Algum tempo mais tarde, a adição de curare diminuiu um pouco os efeitos causados pelos espasmos musculares. Foi um método abandonado pelo surgimento dos neurolépticos e da eletroconvulsoterapia.
Lobotomia
Moniz (1935) realizou a lobotomia (leucotomia), após as descobertas de alterações no comportamento de animais (cães e chimpanzés) que haviam sido submetidos a ablação cirúrgica do córtex pré-frontal e frontal. Moniz pressupôs que se cortasse as fibras nervosas que unem estas duas estruturas ao tálamo obteria melhora do quadro clínico de pacientes com sintomas mentais graves. Moniz, juntamente com Hess recebeu o Nobel de Medicina em 1949 pela relevância da leucotomia no tratamento de algumas doenças mentais. Mais tarde um neurologista americano chamado Freeman associado ao neurocirurgião Watts aperfeiçoaram o método que ficou descrito como “Procedimento Padronizado de Freeman-Watts”. Após algum tempo Freeman fez uma “adaptação” à técnica cirúrgica, utilizando anestesia local, ele introduzia um furador de gelo através do teto da órbita, após uma angulação o procedimento estava concluído. Este procedimento foi abandonado após vários abusos terem sido praticados, por exemplo seu uso por motivos econômicos (era mais barato do que manter um paciente hospitalizado por longo tempo), sociais (para as famílias cuidarem de seus doentes mais tranquilamente), educacionais (crianças com problemas disciplinares) e políticos (dissidentes). É importante salientar que estes usos representaram um desvio do que havia sido proposto por Moniz, que a indicava apenas para casos desesperadores.
Eletroconvulsoterapia
Em 1938, foram realizadas as primeiras eletroconvulsoterapias. Ugo Cerlertti acreditava no método de provocar convulsões com metazol, criado por Meduna, no entanto devido aos efeitos adversos apresentados apostou em outras formas de criar as convulsões. Ele era especialista em epilepsia e fazia vários experimentos provocando convulsões em animais. Associado a dois outros pesquisadores, Bini e Kalinowski desenvolveu um equipamento capaz de provocar choques elétricos controláveis em seres humanos. O novo método foi aplicado a vários pacientes portadores de doenças psiquiátricas, com resultados francamente positivos. O curare e a escopolamina passaram a ser utilizados em conjunto com o método de choques elétricos, substituindo a terapia com insulina e metazol. Esta terapia teve seu uso reduzido após o surgimento dos neurolépticos e ficou muito estigmatizada, sendo vista de forma política e ideológica e não científica, uma vez que a eletroconvulsoterapia era, algumas vezes, usada de forma abusiva, inspirando inclusive um romance que virou filme de sucesso One Flew Over the Cuckoo’s Nest (1975), em nosso país denominado “Um estranho no ninho”. Nos últimos anos voltou a ser reconhecido como um método médico de controle de casos bem específicos de doenças mentais, hoje ainda é utilizado e possui indicações clínicas bem precisas, nos EUA cerca de 100.000 a 150.000 pessoas são submetidas anualmente a este tratamento.
Referências
CASTRO, M. D. G. T.; ANDRADE, T. R.; MULLER, M. C. Conceito mente e corpo através da história. Psicologia em Estudo, v. 11, n. 1, p. 39-43, 2006.
SABBATINI, R. História da terapia por choque em psiquiatria. Revista Cérebro e Mente n.4. SABBATINI, R. História da psicocirurgia, Revista Cérebro e Mente. Junho 1997.